Caro voluntário,
Vou lhe contar uma história sobre o Tempo. Não se preocupe, serei breve!
Certa vez estive no Peru. Não faz muito tempo…
Entre dias e dias de viagem, milhares de passeios por ruínas de civilizações anteriores a nossa. Desde Tihuanaco até o império Inca, que pereceu após a chegada dos espanhóis. Os europeus dizimaram índios de ponta a ponta do nosso continente e acabaram por impor um modelo de civilização que conhecemos até hoje!
Toda a forma como pensamos e enxergamos o mundo hoje tem suas raízes nos povos europeus que influenciaram quase todos os cantos do planeta. Em especial as Américas.
Mas voltando à minha viagem…
Em uma das cidades que visitei, Ollantaytambo, tive uma epifania. Um daqueles momentos de grande aprendizado, grande iluminação, em questão de segundos. Observava um santuário Inca de uma cidade que, ainda hoje, permanece usando algumas estruturas construídas antes da chegada dos europeus. Os aquedutos, por exemplo…
Esse santuário ficava no alto de um morro e atrás dele havia um vale de tirar o fôlego! O guia explicava que o santuário estava inacabado por causa da invasão dos espanhóis (sempre eles!). Apontava as evidências de que ainda faltavam pedras a serem colocadas no santuário.
Aliás, sugiro que você pesquise um pouco sobre a engenharia dos Incas. Eles eram capazes de construir um muro com pedras gigantescas se encaixando como um enorme quebra-cabeças! Não usavam nada como cimento. Só encaixe! E, acredite ou não, essas obras estão em pé até hoje. Resistindo ao tempo e aos fenômenos da natureza como terremotos, típicos no Peru. Nem mesmo as construções atuais são tão resistentes!
E lá estava eu admirando o tal santuário. Impressionado, boquiaberto, admirado!
O guia mostrou o grande vale atrás do santuário e apontou a pedraria de onde os incas retiravam as pedras para construir não apenas aquele espaço, mas toda a cidade ao redor de onde estávamos. No meio do caminho, entre o santuário e a pedraria, havia um gigantesco bloco de pedra. Arrastado e largado ali.
Sim…Drummond que me perdoe, mas no meio do caminho havia uma pedra!
Não um simples bloco de pedra, um bloco de uns 3m x 3m x 3m! Pesado como o inferno! Cortado como se fosse um dado! E o primeiro espanto é pensar como, no século XV, eles eram capazes de ser tão precisos no corte de uma pedra!
E lá continuei eu. Mirando a pedra distante e ouvindo o guia. Imaginando o momento da chegada dos espanhóis se houve conflito entre nativos e europeus. Pensando, também, em como ‘raios’ os tais incas poderiam subir morro acima com um troço daqueles sem guindastes, caminhões, helicópteros ou qualquer coisa que o valha…
O guia explicava que eles eram capazes de demorar dias, semanas, meses, anos, décadas construindo aquele santuário. Gerações indo e vindo com o objetivo de terminar de construir aquele espaço sagrado…
Foi quando ele proferiu a frase que estalou na minha cabeça: “Um homem daquele tempo era capaz de passar uma vida toda construindo algo que certamente não veria acabado. A noção de tempo deles era diferente da nossa…”
Uau! Vai ser bem resolvido com o Tempo assim lá no Peru!
Depois disso, não consegui parar de pensar em como lidamos com o Tempo hoje em dia. Sim, Tempo com T maiúsculo. Esse mesmo versado por Caetano, filosofado por Heiddeger ou fabulado pelos gregos…
Nos tempos modernos de hoje, lidamos com o Tempo como se ele fosse uma ampulheta das nossas vidas individuais. Uma fina areia que corre e cai de um bulbo de vidro para outro. Cada grãozinho representa uma meta a ser cumprida, um dia a ser vivido, um ano a ser completo. Ou, no bulbo de baixo, uma memória marcante, uma cicatriz incurável, um dia inesquecível…
E dessa forma vivemos todos os dias. Sem pensar que essa forma de ver o mundo é como o ar que respiramos. Está lá, respiramos, mas nunca filosofamos sobre ele…Não é algo visível, palpável.
Entre outras coisas, essa epifania me fez pensar em nosso trabalho voluntário. Trabalho duro! É o dinheiro a ser arrecadado. Favelas a serem visitadas. Coletas e construções agendadas no calendário. Nesse final de semana de construção, pilotis a serem fixados. Pregos fincados na madeira e telhado pronto para uma família ter uma casa, uma vida melhor. Trabalhamos com metas e é normal que seja assim! “Começou, não pára!”, como diria o outro…
E, no horizonte, uma meta difícil de digerir. É Brasil que não acaba mais! Favela atrás de favela. Barracos morro acima e famílias desabrigadas água abaixo… Assim fica difícil mesmo! Pensar em quanto trabalho teremos pela frente… Mas queria nos dar uma sugestão: Que tal se começássemos a enxergar nosso trabalho como os incas enxergavam aquele santuário sagrado? Que tal se pensássemos no Tempo de uma forma que fosse mais fácil de digerir nossas metas?
Assim como eles pensavam bloco de pedra por bloco de pedra, que tal pensarmos casa a casa, família a família?
Imagine um homem carregando nos ombros um bloco de pedra morro acima pensando que jamais chegaria a desfrutar daquele santuário. Que talvez nem os filhos ou os netos poderiam realizar uma cerimônia religiosa por ali…
Agora imagine que mesmo assim as pedras foram recortadas e levadas até lá! Pedra a pedra! E todas elas se encaixando.
E aquele santuário de Ollantaytambo não foi o único! Há construções como aquela espalhadas por todo o Peru, pelo Chile, pela Bolívia…
Que tal vermos o nosso trabalho como fundamental para as gerações futuras? Que tal tirarmos um pouco do peso de ‘resolver o problema do Brasil’ e pensarmos no Tempo como algo contínuo, que não está cerrado dentro de bulbos de vidro ou marcado pelas batidas de nossos corações?
Para mim funcionou. Deu um alívio!
O problema das favelas no Brasil e na América Latina não é um problema individual, um problema meu. É um problema compartilhado! É nosso!
Continuo trabalhando. Continuo a ter metas, mas faço questão de dividir esse trabalho com meus contemporâneos e com as gerações que estão por vir.
Talvez seja esse o segredo dos Incas. Suas construções, de tão sólidas, resistiram ao Tempo como poucas na História…
Um abraço e boa construção!
Mellinho
Felipe Mello
Voluntario de Formación y Voluntariado
Um teto para meu Pais

Texto en español
Estimado voluntario,
Voy a contarte una historia acerca del Tiempo. No te preocupes, ¡seré breve!
Hace poco estuve en Perú…
Entre días y días de viaje, miles de paseos por ruinas de civilizaciones anteriores a la nuestra. Desde Tihuanaco hasta el imperio Inca, que nació después de la llegada de los españoles. Los europeos mataron a muchos indios por todo nuestro continente y acabaron imponiendo un modelo de civilización presente hasta hoy día.
Nuestra forma de pensar y de ver el mundo tiene sus raíces en los pueblos europeos que influyeron casi todos los rincones de nuestro planeta. Sobre todo las Américas.
Pero volvamos a mi viaje…
En una de las ciudades que visité, Ollantaytambo, viví una epifanía. Un momento de gran aprendizaje, gran iluminación, en cuestión de segundos. Observaba un santuario Inca de una ciudad que, hasta hoy día, sigue utilizando algunas de las estructuras construidas antes de la llegada de los europeos. Los acueductos, por ejemplo…
Dicho santuario estaba situado en el alto de un monte y detrás quedaba un valle, ¡de quitar el aliento! El guía nos explicaba que el santuario estaba inacabado por la invasión de los españoles (¡siempre por ellos!). Subrayaba la evidencia de que todavía faltaban piedras por poner en el santuario.
Por cierto, sugiero que busques información sobre la ingeniería de los Incas. Eran capaces de construir una pared con piedras gigantescas, ¡encajándose como un puzzle enorme! No utilizaban cemento. Sólo encaje. Y me creas o no, esas obras siguen de pie hoy día. Resistiendo al Tiempo y a fenómenos naturales como los sismos, frecuentes en Perú. ¡Ni siquiera las construcciones actuales son tan resistentes!
Y allá estaba yo, admirando dicho santuario. ¡Impresionado, boquiabierto, admirado!
El guía nos enseñó el gran valle detrás del santuario y señaló la pedrería de donde los Incas quitaban las piedras para construir no sólo ese espacio, sino toda la ciudad alrededor. A mitad del camino, entre el santuario y la pedrería, estaba un bloque de piedra gigante. Arrastrado y abandonado allí.
Sí. Que me perdone Drummond , ¡pero a mitad del camino había una piedra!
No era un simple bloque de piedra, sino un bloque de 3×3x3m. ¡Pesadísimo! ¡Cortado como si fuera un dado! Y el primer espanto es pensar cómo, en el siglo XV, eran capaces de ser tan precisos en el corte de una piedra.
Y yo seguí mirando la piedra distante y escuchando al guía. Imaginando el momento de la llegada de los españoles, el conflicto entre nativos y europeos. Preguntándome también cómo los Incas podían subir esas piedras por un monte sin grúas, camiones, helicópteros o algo por el estilo…
El guía explicaba que los Incas tardaron días, semanas, meses, años, décadas en construir aquel santuario. Generaciones yendo y viniendo con el único objetivo de terminar de construir aquel espacio sagrado…
Fue cuando pronunció la frase que estalló en mi cabeza : “Un hombre de aquellos tiempos podía pasar toda su vida construyendo algo que seguramente no vería terminado. La noción que tenían del tiempo era distinta de la nuestra…”
Después de eso no logré parar de pensar en nuestra forma de lidiar con el Tiempo. Sí, Tiempo con T mayúscula. Esa misma T versada por Caetano, filosofada por Heiddeger o fabulada por los griegos…
Hoy en día, en los tiempos modernos, lidiamos con el Tiempo como si fuera el reloj de arena de nuestras vidas. Una arena fina que corre y pasa de un bulbo de vidrio a otro. Cada granito representa una meta, un día que vivir, un año que completar. O, en el bulbo de abajo, un recuerdo importante, una cicatriz incurable, un día inolvidable…
Así vivimos a diario. Sin pensar que esa manera de ver el mundo es como el aire que respiramos. Está ahí, respiramos, pero nunca filosofamos sobre ello… No es algo visible, palpable.
Entre otras cosas, esa epifanía me hizo pensar en nuestro trabajo voluntario. ¡Un trabajo duro! Es el dinero que hay que recaudar. Los campamentos que hay que visitar. Colectas y construcciones previstas en el calendario. Durante ese fin de semana de construcción, hay que fijar los palos. Clavos en la madera y techo listo para que una familia tenga una casa, una vida mejor. Trabajamos con metas, ¡y es normal que así sea! “Empezaste, ¡no pares!”, como diría otro…
Y en el horizonte, una meta difícil para digerir. ¡Brasil no acaba nunca! Asentamientos (favelas) tras asentamientos. Chabolas en los montes y familias sin abrigo bajo el agua… ¡Así no es nada fácil! Pensar en la cantidad de trabajo que queda por hacer… Pero quisiera proponer algo : ¿Y si empezáramos a ver nuestro trabajo de la misma manera que los Incas veían aquel santuario sagrado? ¿Y si pensáramos en el Tiempo de tal forma que fuera más fácil digerir nuestras metas?
Al igual que ellos pensaban, bloque de piedra por bloque de piedra, ¿qué les parece si pensamos casa por casa, familia por familia?
Imagínese a un hombre subiendo un monte cargando en los hombros un bloque de piedra y pensado que jamás llegaría a disfrutar de aquel santuario. Pensando que quizás ni sus hijos o nietos podrían realizar una ceremonia religiosa allí…
Ahora imagínese que aún así las piedras fueron recortadas y llevadas hasta allí. ¡Piedra por piedra! Y todas ellas encajándose.
¡Y aquel santuario de Ollantaytambo no fue el único! Hay construcciones como aquella por todo Perú, Chile, Bolivia…
¿Y si viéramos nuestro trabajo como algo esencial para las futuras generaciones? ¿Y si nos quitáramos un poco el peso de “solucionar el problema de Brasil” y pensáramos en el Tiempo como algo continuo, que no está preso dentro de bulbos de vidrio ni marcado por los latidos de nuestros corazones?
Para mí funcionó. ¡Fue un alivio!
El problema de los asentamientos en Brasil y en América Latina no es un problema individual, un problema mío. ¡Es un problema compartido! ¡Es nuestro!
Sigo trabajando. Sigo teniendo retos, pero me parece fundamental compartir ese trabajo con mis contemporáneos y con las generaciones futuras.
Quizás sea ese el secreto de los Incas. Sus construcciones, al ser tan sólidas, resistieron al Tiempo como pocas en la Historia…
Un abrazo y que construyas bien,
Mellinho
Felipe Mello
Voluntario de FormaciÓn y Voluntariado
Um teto para meu Pais
**Traducción: Mariana Solleiro
Escrito por utpmp 
Escrito por utpmp
Escrito por jricci 

