Identidade x Desigualdade no Brasil

Ás vésperas do Encontro Latino-americano resolvi propor para a equipe UTPMP Brasil uma discussão que muito se assemelha ao tema do encontro, tendo, no entanto, a problemática aplicada ao Brasil. Com alguns textos base, propus uma discussão acerca do que seria uma identidade brasileira. Como é entendida essa suposta identidade que a principio é vista como “identidade ideológica ou cultural” mas que é posta em dúvida quando levados em conta aspectos materiais de nossa sociedade? A intenção era refletir, como proposto pelo tema do encontro, que por trás da imagem exposta internacionalmente de um país alegre e festivo, há o Brasil que passamos a conhecer nas favelas onde construímos.

Não é necessário ir às favelas brasileiras como fazem os voluntários UTPMP – Brasil para sentir o quanto a pobreza e as desigualdades existem e estão presentes no nosso dia a dia. Andando na Avenida Paulista que é a avenida mais famosa de São Paulo, considerado um centro financeiro e cultural, podemos ver ostensivos prédios onde estão as sedes de algumas das principais empresas ao lado de inúmeras pessoas pedindo dinheiro nas ruas e expondo seu estado de vulnerabilidade. O retrato da pobreza brasileira é a desigualdade. Uma desigualdade que cresce a cada dia e tristemente se torna natural aos olhos dos brasileiros.

Para dar exemplos da má distribuição de renda no Brasil, segundo dados do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), divulgados no ano passado, o Brasil fica atrás apenas de países muito pobres do continente africano, como Namíbia, Lesoto e Serra Leoa, em relação à concentração de renda. Enquanto os 10% mais ricos no país ficam com 46,7% da renda, os 10% mais pobres se sustentam com apenas 0,5%.

Há ainda a desigualdade regional, uma das maiores contradições do país, quando vemos que nas regiões Sul e Sudeste é que se concentra a maior parte da renda, restando muito pouco para o Nordeste. Só a cidade de São Paulo concentra mais de 30% do PIB de todo o país e mesmo assim, dados mostram que 1 em cada 4 paulistanos vive em favelas.

Tanta desigualdade material nos faz questionar o verdadeiro sentido de uma identidade ideológica e cultural que seja nacional. Me lembro sempre do que disse um voluntário brasileiro ao voltar das construções no Chile a respeito da família para quem esteve construindo. Ele disse que a única coisa que diferenciava essa família chilena das famílias para quem ele construiu no Brasil era o idioma. Então talvez caiba aqui pensar em uma frase sempre recorrente no Teto “Que a pobreza nos una”.

A desigualdade acentua a percepção de uma sociedade de classes e isso gera duas carências principais. A primeira é a falta de consciência societária. Mesmo quando percebemos o quanto a pobreza e a desigualdade social se manifesta em nosso dia-a-dia por meio da violência e criminalidade urbana, há um certo comodismo e mesmo apatia em reverter esse quadro, pois as pessoas já se mostram acostumadas a conviver num contexto que já está  banalizado. Essa apatia se torna muito mais nítida quando há falhas em instituições que existem para defender um interesse nacional e isso gera o individualismo.

Isso acaba por nos levar a uma segunda carência: faltam idealismos para se pensar em conjunto em um projeto nacional e não mais de classes. Frei Betto, sociólogo brasileiro em um famoso artigo intitulado “É proibido Sonhar” apresenta muito bem essa falta de idealismos quando diz que antigamente os jovens sonharam com a mudança do Brasil e do mundo e hoje já não são mais capazes de sonhar em escala nacional ou planetária. Sonham simplesmente em escala individual ou familiar.

Além de toda a diversidade cultural presente em nosso amplo território, para se pensar em uma identidade nacional, é preciso pensar também em termos materiais e isso significa pensar em um projeto de desenvolvimento nacional que reduza as desigualdades de renda e a pobreza. Para isso é necessário resgatar a consciência societária e busca a participação de todos. Estado e sociedade não se contrapõem quando as relações estão assentadas no terreno firme da democracia e no compromisso comum com a construção da pátria.

Aí reside um dos principais desafios do nosso tempo: reconstruir as relações do Estado com a sociedade a partir de um novo paradigma que permita recuperar o Estado do Bem-Estar Social. É o desafio de construir um Estado onde a proteção dos pobres seja marcada e orientada pelo princípio da emancipação, de modo que seus cidadãos se sintam partes de um projeto nacional, com efetivos espaços de participação social e compartilhamento de responsabilidades.

Uliane Appolinario
Voluntaria
Um Teto para meu País – Brasil

Columna de OpiniónA través de este espacio buscamos acercarnos a la realidad de los países donde se encuentra UTPMP, tocando temas relevantes para los contextos donde los distintos equipos desarrollan su trabajo. El texto publicado no necesariamente representan la opinión de todos los que trabajamos en esta institución.

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